Nós vamos reagir sempre

Nós sempre defendemos os direitos humanos, os direitos dos cidadãos, reagindo. Os especialistas recomendam não reagir a assaltos e outros crimes. Mas nós reagimos aos bandidos, assassinos de nosso amado filho Alex Schomaker Bastos.

Quando, muito jovens, defendemos o socialismo e o fim da guerra do Vietnã, mandando os ianques para casa, reagimos à poderosa ideia do imperialismo americano, ao massacre do povo vietnamita e à exploração capitalista do Terceiro Mundo.
Sonhávamos em mudar o mundo.

Quando, ainda muito jovens, defendemos o fim da ditadura civil-militar brasileira de 1964, participando de passeatas como a dos Cem Mil, reagimos aos torturadores e assassinos militares e civis que deram um golpe na democracia brasileira.

Mais tarde, quando já não havia guerra no Vietnã nem ditadura civil-militar no Brasil, passamos a defender os direitos dos que passavam fome, dos que não tinham acesso à educação e dos que eram excluídos socialmente por raça, gênero, orientação sexual ou deficiência. Reagimos, então, com
o voto, com a política partidária, participando e contribuindo com a organização da sociedade civil e escrevendo nas mídias convencional e alternativa.

Nós nunca deixamos de reagir às situações adversas que nos atingiam, direta ou indiretamente, porque sempre tivemos consciência de que éramos parte de uma família, de um grupo de amigos, de um bairro, de uma cidade, do mundo, e sempre soubemos que os outros éramos nós. Se acontece com o outro, acontece comigo.
Por isso, não será agora, quando vivemos o aparentemente terrível conflito entre os direitos humanos que sempre defendemos e nossa revolta pelo covarde assassinato de nosso amado filho Alex, que deixaremos de reagir.

O ato de roubar um celular atirando sete vezes, de cima para baixo – com Alex puxado e derrubado pelas costas por um dos assaltantes e já batido pelos quatro primeiros disparos –, coloca seus algozes no plano de existência de vermes que nada têm de humanos.

Por isso, não será agora, que a violência urbana nos demonstrou definitivamente que “os outros somos nós”, que deixaremos de reagir. Para continuar vivendo, precisamos manter nossa crença na civilização e vamos lutar contra a barbárie estimulada pela ausência do Estado na educação, na mos às grades que nos confinam em nossas moradias e ao medo que nos proíbe de ocupar as ruas e praças das nossas cidades.

Nós reagimos aos bandidos, assassinos de nosso amado filho. Nossa reação está na crença de que as ruas e as praças são nossas, são dos cidadãos. Nossa reação está na Praça Alex Schomaker Bastos entregue aos cidadãos de nossa cidade. Hoje iluminada, limpa, bonita e segura, é frequentada, sem medo, por qualquer um que queira apenas se sentar e olhar. A praça é homenagem à memória, e não ao esquecimento.

Nossa reação está na estante cheia de livros que são pegos, lidos e trocados por quem quiser. A estante está sendo bastante utilizada e até agora não sofreu nenhum ato de vandalismo, o que nos deixa a convicção de que devemos sempre reagir. Reagir como cidadãos, acreditando nas pequenas atitudes que podem ser transformadas em grandes mudanças.

Nós temos medo, é claro. Como têm os que moram no Rio de Janeiro, mas reagiremos a esse medo como sempre. Acreditando na Justiça e lutando pela cidadania. Queremos continuar a sonhar e ajudar a mudar o mundo.

Neste dia 4 de outubro Alex faz 25 anos. Nós, seus pais orgulhosos e entristecidos, honraremos seu nome e reagiremos sempre.

Alex, nós te amamos muito, e queríamos muito poder te abraçar e dizer “Feliz Aniversário”.

Mausy Schomaker e Andrei Bastos são pais do biólogo assassinado em frente ao campus da UFRJ, em Botafogo, em 8 de janeiro de 2015.

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